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Calen Drag: um calendário além do tempo

O “Calen Drag”, um calendário produzido e estrelado por Drag Queens do DF, tem objetivos bem maiores que apenas estabelecer uma noção temporal. A iniciativa, construída por meio da parceria de diversas entidades sociais, abraça um projeto tão grande quanto os corações de quem está por trás da ação. Além de colocar a cultura como uma ação política, o projeto visa arrecadar fundos para a Casa Rosa, um espaço de acolhimento de jovens LGBTs em situação de risco. O lançamento do calendário será nesta terça-feira (19), a partir das 20h, no Museu da República.

“A CUT Brasília, enquanto defensora de um mundo mais justo e democrático, apoia a iniciativa, ajudou a financiar o projeto e participará, com muito orgulho, do lançamento do material. Nós defendemos a dignidade da pessoa humana e acreditamos que projetos como esse vão ao encontro dos ideais da Central”, afirma o secretário-geral da CUT Brasília, Rodrigo Rodrigues.

Além de colaborar com a Casa Rosa, os recursos arrecadados com a venda dos calendários, que custam R$ 50 cada, serão destinados à formação e capacitação das Drags Queens do DF. No material, os monumentos e espaços urbanos de Brasília formam os cenários das fotografias que compõem o material. Pelo projeto, cada mês abordará um tema. Em janeiro, por exemplo, será tratada a questão da visibilidade trans.

Ruth Venceremos

“Um grupo de Drag Queens, que se reúne para produzir um calendário com temáticas diversas, neste momento histórico de avanço conservador, tem uma grande relevância social. Por outro lado, tem a dimensão da solidariedade, que é poder arrecadar renda para doar à construção da Casa Rosa, um projeto magnífico. É importante, não só a comunidade LGBT, como a sociedade em geral, dar atenção ao tema que diz respeito à humanização das pessoas. Talvez, a coisa mais linda desse projeto é dar humanidade àqueles que foram expulsos de casa”, diz a drag Ruth Venceremos, que participa ativamente da iniciativa.

De acordo com um estudo divulgado pela Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexo, em 2016, dois terços da população mundial afirma que não gostaria de ter um filho gay. A Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social da Prefeitura de São Paulo (SMADS) apontou que entre 5,3% a 8,9 % da população em situação de rua pertence à comunidade LGBT. O mesmo levantamento indicou, ainda, que esse grupo está mais vulnerável ao uso de drogas e à prostituição.

Casa Rosa, um projeto fruto do amor

“Meu filho, por que você não constrói uma casa de amparo para os seus amigos? Eu te ajudo com o que for preciso”. Assim, há cerca de sete anos, surgiam as primeiras ideias sobre a Casa Rosa. A frase, carregada de muita motivação, saiu da boca do pai de Marcos Tavares, 50 anos, idealizador e impulsionador do projeto.

Sempre companheiros, Marcos recebeu do seu pai e amigo o amparo necessário para enfrentar a exclusão social por conta de sua orientação sexual. O amor paterno sempre esteve presente e nunca mediu esforços para defendê-lo. A mesma proteção, porém, faltava aos seus amigos, que eram abandonados e expulsos de casa. Incontáveis vezes, coube a Marcos dar esse suporte. Com um amor sem medidas, os acolhia em seu lar, até que estivessem em condições de enfrentar o mundo. Começava ali uma história carregada de muita empatia. Por um tempo, a sua casa se converteu em um espaço plural e diverso, onde o amor era o principal ingrediente para a boa convivência.

Um fatídico acontecimento veio a mudar sua vida: o falecimento do seu pai. Sem chão e bastante abatido, Marcos deixou a iniciativa de lado. Precisava de um tempo para si e para conduzir sua vida sem aquele que nunca lhe negara apoio. Mas o intervalo não durou muito. Anos depois, após conhecer o Grupo Humanização, de atividades LGBTs, ele retomou o projeto. Não havia como fugir. Seu coração ansiava. Afinal, ajudar e amar o próximo sem medidas seguia em pulsando em sua essência.

Marcos Tavares, idealizador do Casa Rosa

Com apoio social, a Casa que objetiva acolher de 40 a 50 pessoas, está sendo construída aos poucos, em Sobradinho I. A ideia é que, além do acolhimento, o público LGBT amparado receba cursos de capacitação para que, em um futuro próximo, possam ser inseridos na sociedade. “A maior missão desse projeto é de acolhimento. No entanto, por meio dele, quero mostrar a realidade que vivemos. Somos gente e temos a capacidade de amar como qualquer outro”, afirma.

O maior empecilho para que o projeto alavanque, infelizmente, ainda é o apoio financeiro. Marcos, por vezes, tira do próprio bolso para arcar com as despesas e compra de materiais. “Desejamos fazer parcerias com empresas públicas e privadas para, assim, impulsionar a Casa”, destaca.

Mesmo sem a Casa Rosa estar pronta, a procura por amparo já começou. Sem condições de oferecer o acolhimento habitacional, Marcos oferta o amor. “A gente senta, conversa, porque isso também é muito importante. O amor ao próximo é o mínimo que devemos oferecer. É essa doação que sempre tive, que mantém meu sonho de pé”, conta.

Quem se interessar em ajudar, pode entrar em contato com Marcos pelo telefone (61) 99220-3745, ou ir diretamente ao local, em Sobradinho I Quadra 17 Conjunto A Casa 45.

 

Fonte: CUT Brasília