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Bancada ruralista força medidas menos restritivas aos agrotóxicos

Não foi a primeira vez, mas várias. Muitas delas reportadas em colunas passadas: “ANVISA divulga lista de vegetais com maiores índices de contaminação por agrotóxicos”. Poderá ser a última, pelo menos enquanto honesta. A bancada ruralista, em troca de apoio ao usurpador Michel Temer e quadrilha, força medidas menos restritivas ao uso de agrotóxicos.

Maior rapidez na aprovação para uso e comercialização de moléculas já proibidas aqui e em diversos países, e aqueles em fase de análise. Mudança da denominação Lei dos Agrotóxicos para Defensivos Vegetais. Terceirização dos agentes inspetores sanitários do órgão. Alívio nas restrições mantidas no Código Florestal.

Enfim, cambalachos desonrosos que atendem interesses setoriais. Isto, vai na contramão do que hoje fazem países da Europa. A França acaba de determinar o ano de 2022 como limite para o uso do glifosato. Aqui mandam as corporações, não o governo e a saúde da população.

Bem, nada na lista poderia ter mudado, sobretudo se para melhor. Afinal, o que foi feito para punir fabricantes e consumidores?

Analisadas 2.500 amostras de 18 tipos de alimentos, o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos de Alimentos (PARA) detectou 1/3 dos vegetais mais consumidos com número elevado de agrotóxicos em sua composição.

Os de sempre: pimentão (92%), morango (63%), pepino (57%), alface (54%), cenoura (50%), abacaxi (33%). Índices altamente nocivos à saúde humana.

Da mesma forma, a desculpa dos fabricantes de agroquímicos e dos produtores rurais também se repete a cada divulgação do PARA: alimentos suscetíveis a pragas e doenças. Realmente, mas que estariam menos contaminados se usados produtos com menor poder tóxico, existentes às centenas no mercado, e tão eficazes quanto os químicos hoje utilizados. Mas como vencer a massiva divulgação feita pelos “campeões do agro”.

Entendem, agora, os motivos para a terceirização e os ataques à ANVISA?

Quem condena essas práticas contra a saúde e as mudanças climáticas no planeta, cada vez mais frequentes e que resultam em grandes tragédias, volta a ser visto como alarmista ou ingênuo.

Desfazem da ciência, tementes a Deus que são. Pesquisas passam a não valer nada. Acabei de acompanhar, na Universidade de São Paulo, um simpósio sobre a futura escassez de água, mundo afora. Também foram abordados, por um professor do Instituto de Geociências da USP e meteorologista, causas e efeitos do aumento da temperatura e suas projeções futuras.

A instabilidade dos períodos de plantio e colheita na produção agrícola dos últimos anos, deveria fazer o “pop-tech-tudo” pensar melhor.

Responde-se com máquinas e equipamentos digitalizados mais sofisticados capazes de prever … o nada, tantas as surpresas.

O problema é que, no Brasil, temos como fundo musical do caminho civilizatório o som necrosado de “Ronaldo Caiado e seus Lobões”. Como evoluir?

A capa da última edição (nº 43) da revista “O Biólogo”, implora: “Salvem as Abelhas”. E acrescenta: “A diminuição da população de algumas espécies chama a atenção para impactos incalculáveis ao meio ambiente”.

A Associação Brasileira de Agricultura Biodinâmica, de Botucatu (SP) lançou, em setembro deste ano, a cartilha “O Ser Abelha”, que mostra a essencialidade do inseto para toda a cadeia alimentar, classificando-a como um superorganismo ameaçado em sua sobrevivência.

Também no mês passado, o “Valor”, publicou a reportagem “Defensivos usados em lavouras de soja ameaçam abelhas no RS”.

O Rio Grande do Sul é o maior produtor nacional de mel. As abelhas estão sendo “defendidas” pelo uso dos inseticidas à base de fipronil e glifosato. Segundo a Câmara Setorial de Apicultura e Meliponicultura, corroborada por órgãos de pesquisas, são esses os “defensivos” que estão causando a morte das abelhas. Trinta mil apicultores a caminho do beleléu. Milhares de colmeias extintas.

Não precisei ir muito longe em minhas Andanças Capitais, para verificar tais efeitos. Pertinho, na região de Atibaia (SP), há muitos produtores de flores. Um senhor japonês (já falecido), sábio em tecnologias orgânicas e naturais, convidou-me a visitar alguns manejos convencionais (uso de agroquímicos) e outros orgânicos.

Brincalhão, ao final das visitas, perguntou-me se notei alguma diferença.

– Pouco, eram espécies e estágios diferentes. Mas, em duas delas, senti forte odor de inseticidas e, nas demais, me incomodou a presença de muitas abelhas. Fiquei com medo de ser picado.

Sorriu:

– Nas duas primeiras não haverá polinização, nas demais acontecerá uma orgia sexual reprodutiva que aumentará a produção e a sanidade das flores.

Já vejo o sojicultor comentando com outro produtor de grãos:

– Agora vão querer atrapalhar nosso negócio por causa das abelhas, hein? Delas só sei que tenho um baita medo da ferroada, não gosto de mel, e quando preciso dar flores mando as artificiais.

– Mais uma bobagem ambientalista. Quanto bateu Chicago hoje?

Fonte: Carta Capital, por Rui Daher