ARTIGO | Videoconferências em tempos de pandemia

*Por Luis Felipe Miguel
Saiu uma reportagem no El País dizendo que videoconferências são ainda mais cansativas do que reuniões presenciais.
Bate 100% com minha experiência. Mais cansativas e muito menos produtivas.
Com o subfinanciamento das pós-graduações, nos últimos anos, começaram a se popularizar bancas de mestrado e doutorado cujos membros externos participavam por Skype ou similar. Sempre tentei evitar.
Mesmo quando não ocorrem problemas de conexão (e eles sempre ocorrem, em algum momento), a qualidade da interação diminui bastante.
Com a pandemia, evitar deixou de ser uma opção. E é pior: bancas em que todos estão online, via Zoom, Jitsi ou outro programa do tipo. Uma penca de janelinhas na tela do computador. Já participei de várias, tenho outras agendadas, não tem jeito. Mas é ruim.
Quando uma pessoa vai falar, as outras desligam o microfone, para evitar eco, e muitas vezes também a câmera, para reduzir o uso da banda e melhorar a recepção do falante. Daí você fala para um monte de janelinhas pretas e perde qualquer feedback do público.
Não há o que fazer, durante a quarentena. Mas que há uma perda de qualidade, isso há.
Agora, simpósios e congressos estão anunciando que ocorrerão online. Não é verdade. Algo ocorrerá online, algum tipo de live acadêmica, mas não é um simpósio, nem um congresso.
É pior do que aquelas infames videopalestras, em que pelo menos a plateia estava reunida e podia interagir entre si e, virtualmente, com o palestrante.
Acho que estamos ensinados demais a reproduzir a “normalidade” em todas as situações.
Cortam nossas verbas, mas nós continuamos trabalhando “normalmente”. Zeram nossas bolsas, mas nós continuamos trabalhando “normalmente”. Anunciam que querem nos destruir, mas nós continuamos trabalhando “normalmente”.
Vamos manter tudo como se nada estivesse ocorrendo – em especial contar os pontos do Lattes e preparar os relatórios da Capes, que são os objetivos finais da vida acadêmica.
Estamos presos em casa, em meio de uma pandemia que já mata quase mil pessoas por dia no Brasil, submetidos a um governo que se irmana com a morte e que tenta aproveitar a crise para implantar uma ditadura aberta no país. Acho que existe justificativa suficiente para cancelar algum evento acadêmico.
*Luis Felipe Miguel é professor de Ciência política da Universidade de Brasília

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