Mulheres e saúde mental em tempos de isolamento social

Por Carliene Sena*

As mulheres são a principal força de trabalho da saúde, representando 65% dos mais de seis milhões de profissionais ocupados no setor público e privado, tanto nas atividades diretas de assistência em hospitais, quanto na Atenção Básica. Segundo dados baseados no Censo do IBGE de 2010, em algumas carreiras, como Fonoaudiologia, Nutrição e Serviço Social, elas alcançam quase a totalidade, ultrapassando 90% de participação. Em outras, como Enfermagem e Psicologia, estão com percentuais acima de 80%. Ainda assim, são as que recebem menos, mesmo desempenhando a mesma função que seus colegas de profissão, além disso, a grande maioria destas mulheres ainda exerce jornadas duplas e/ou triplas, o que aumenta sua sobrecarga de trabalho, estresse e estafa física e mental.

A psicologia conta com um campo de atuação chamada Psicologia de emergências e desastres, é um campo relativamente novo, surgido, principalmente dos contextos de guerra. Em geral, em casos de risco iminente à vida, as pessoas tendem a minimizar questões psíquicas, porém percebeu-se que o pós-guerra foi um momento de grande adoecimento psíquico tanto dos soldados que vivenciou os campos de batalha, quanto de seus familiares. Como a atuação humana se dá sobre aquilo que é conhecido, as ciências psíquicas se debruçaram sobre esse fenômeno pós guerra, assim foi possível estabelecer atuações/protocolos para situações de grande estresse social cm vistas a minimizar os danos psíquicos da população atingida.

Como bem definiu Débora Nohal, reconhecida psicóloga brasileira das emergências e desastres e pesquisadora da FIOCRUZ, a profissional que atua em situação de emergência faz um trabalho voltado para o outro, num ambiente específico, como, por exemplo, num pronto socorro, SAMU, Bombeiros, mas ao voltar para casa, seu ambiente familiar está protegido e a pessoa pode recompor suas condições psíquicas e se “distanciar” do agente estressor. Contudo, nas situações de desastre, como no caso dessa pandemia, além de atuar na linha de frente no combate ao avanço da contaminação e nos cuidados aos infectados, as profissionais, sobretudo da saúde, estão também envoltas nessa situação, ou seja, ao voltar para casa o agente de estresse continua fazendo parte da sua rotina, daí vem a preocupação com a família, com as condições de vida, de trabalhos, os conflitos sociais e, nesse caso, políticos e econômicos envolvendo a situação.

É importante frisar que o ser humano é um ser social, isso é consenso nos estudos das ciências humanas, o que não significa que, necessariamente, se precisa de contato social com muita gente o tempo todo, mas sim, do ponto de vista psíquico, as relações humanas são fundamentais para um bom funcionamento da psique. Porém, é perfeitamente possível a vivência temporária do isolamento social sem que tenha desdobramentos severos sobre a saúde mental, para tanto se faz necessário alguns cuidados que adentram outras questões: o medo da perda salarial e o receio de pegar a doença.

O medo é uma resposta humana ao perigo, é a capacidade de estar alerta. Ele é importante porque as emoções servem para o corpo humano comunicar alguma alteração ou instabilidade. Quando se fala da resposta imediata do medo, nomeia-se de reação luta-fuga. Neste tipo de resposta o corpo está pronto para a ação.

O grande problema do medo, nesse caso, é vir acompanhado pela ansiedade, ou seja, o sentimento de antecipação do que acontecerá em seguida, algo que não está sob o controle da pessoa, se persistir pode ser desencadeado um processo de pânico e, ao invés da resposta luta-fuga, têm-se como resposta a paralisia, com a inatividade se seguem sentimentos de impotência, de fracasso, de autodepreciação.

Existem questões reais, a possibilidade de ficar sem salário, de não conseguir suprir necessidades e o próprio medo de se contaminar e/ou contaminar pessoas queridas. Esse medo precisa servir como impulso para a ação, nesse caso é importante pensar na quarentena não como um momento de inatividade, mas como uma ação de toda a sociedade para o bem comum. É importante não pensar que está sendo obrigado a deixar de fazer o que deve ou gosta, mas que se está agindo assim para se cuidar e cuidar das pessoas em uma escala maior, da sociedade. Não há passividade, todos e todas são sujeitos ativos nesse processo.

Buscar alternativas de colaboração coletiva para garantia de renda para si e/ou para outros é um exemplo de ação que se pode ter nesse momento, para isso é fundamental se conhecer e saber seus limites, algumas pessoas terão maior intervenção no coletivo, promovendo correntes e redes de arrecadação, de pressão aos governantes, de incidência sobre grupos, outras serão capazes de organizar a dinâmica familiar, fazer as próprias tarefas e manter-se bem, cada pessoa, dando a contribuição dentro daquilo que lhe é capaz, já colabora sobremaneira para a saída o quanto antes dessa pandemia.

As pessoas com menos recursos financeiros ou com recursos “incertos” (desempregadas/os, trabalhadoras/es informais, autônomas/os, pessoas sem renda fixa, etc.), certamente terão sua saúde mental afetada pelo isolamento social, porém o surgimento desse sofrimento psíquico mais grave, talvez, possa ser postergado nessa população. O medo impulsiona a ação e, fazer algo já alivia parte da tensão e do estresse causado pelas incertezas desse momento.

Pessoas com renda incerta tendem, nesse momento, a se movimentarem mais, seja produzindo trabalhos manuais para revenda, busca por empregos precarizados, subvertendo o isolamento para angariar algum recurso, vide as mobilizações sociais nas comunidades do Rio de Janeiro para a manutenção da vida. Só após um período, quando já estiver passado a pandemia e a sociedade começar a reorganizar a vida, essas pessoas começam a sofrer os efeitos psíquicos da pandemia, já que nesse momento pode-se haver o tempo para elaboração de tudo vivido e a percepção do quanto a pandemia afetou sua vida e pode ter ceifado a vida de entes queridos.

Nesse caso, essas pessoas acabarão sendo as mais expostas, depois dos profissionais da saúde e dos serviços essenciais, ao vírus, justamente pela necessidade de buscar alternativas financeiras e desobediência dos decretos de quarentena em razão da necessidade de manutenção da vida.

Nesse caso a renda emergencial garantirá apenas uma parte da vida dessas pessoas. Cabe frisar a proposta feita pelo Partido dos Trabalhadores pela garantia de, ao menos, um salário mínimo a todas as pessoas em condições de “renda incerta”, porém diante da oferta de apenas 200 reais pelo governo federal e, após negociações com o congresso, foi possível garantir R$600 reais a essa pessoas. É pouco, o auxílio emergencial supre uma parte das necessidades dessas pessoas, a renda vai suprir uma parte das despesas dessas famílias, haverá uma melhor organização e, possível, diminuição do estresse relacionado às incertezas financeiras.

Já as pessoas que possuem renda fixa (servidoras/es públicas/es e assalariadas/os, etc.) sabem que terão o recurso material que os manterão vivos durante a pandemia e terão, então, a possibilidade de vivenciar o ócio. Esse tempo deve ser revertido em promoção de saúde, aqui uso o termo não apenas como ausência de doença, mas saúde como qualidade de vida. O ócio produtivo idealizado pelo filósofo. É fundamental ocupar a mente para que esta não seja dominada pelo pânico.

Os espaços para lazer, diversão, cuidados estéticos, restaurantes, academias, diversos locais onde as pessoas liberam energias, trocam experiências, distraem o estresse estão com acesso restrito, muitos estão fechados. Muitas pessoas, sobretudo as mulheres, estão exercendo o trabalho fora de casa (profissionais de saúde ou outros setores essenciais), outras estão em tele trabalho, outras ainda em situações de subempregos.

As mulheres, além do trabalho remunerado, desempenham ainda os trabalhos não remunerados: cuidam dos afazeres domésticos de limpeza e organização da casa, cuidam dos filhos e da alimentação na hora certa, outras agora têm também a demanda de acompanhar as aulas on line dos filhos, onde lhes é exigido outro papel, o de educadora.

Há um esgotamento físico e mental dessas mulheres consequente de todas essas demandas e, por seguinte, um aumento nas possibilidades de desenvolvimento de adoecimento psíquico. Os sinais desse adoecimento podem aparecer de diversas formas, em alguns casos isso virá em longo prazo. Há o aumento de crises depressivas e de ansiedade e o suicídio também está na ordem do dia, então é preciso falar sobre essas questões.

O medo traz reações orgânicas necessárias à situação de luta-fuga: liberação de adrenalina, contração muscular, dilatação das pupilas, entre outras, todas essas reações são necessárias para que haja alguma reação do corpo mediante a ameaça. Se o corpo não reage de forma a canalizar toda essa energia liberada, isso vai sendo “represado” e gera um acúmulo interno, então há a sensação de aperto no peito, falta de ar, taquicardia, dor de cabeça, tristeza excessiva, choro repentino, respiração ofegante, entre outras manifestações orgânicas que o corpo produz como alerta.

Ás vezes, a resposta física não aparece dessa forma. A mulher está com mil atividades, não tem tempo pra pensar em tudo que está acontecendo, não elabora esse momento e não percebe o próprio medo. Daí pode surgir outros sinais como: insônia, pensamento persistente, fuga de pensamento, desatenção, sonolência, falta de apetite ou apetite excessivo, irritação, tristeza. Esses são sinais de alerta para parar e olhar um pouco pra si.

Muitas questões têm permeado esse momento de isolamento social: Como as pessoas, principalmente as mulheres, podem se cuidar para evitar ou diminuir o sofrimento mental neste período?  O tele atendimento é recomendado nestes casos?

Não existe receita, não há regras universais, cada organismo, vivência, realidade, pisque são únicas e cada pessoa terá uma reação e uma intervenção única, porém, se está se percebendo ansiosa, depressiva, acelerada demais ou protelando demais as coisas, algumas dicas são bem vindas.

O corpo é um organismo, um todo integrado, entende-se o ser humano como biopsicossocial, então cuidem bem do seu corpo, coma alimentos saudáveis, não é por que se está em isolamento social que dá pra viver de comer pão e biscoito o dia todo. Mesmo que seja só pra você: cozinhe! Se estiver muito mal, peça marmita, peça pra vizinha, um familiar levar pra você, mas coma comida com diversidade de vitaminas; tome sol, pelo menos 15 minutos antes das 11h da manhã. A vitamina D é fundamental para o nosso organismo, há estudos que relacionam a depressão à falta de vitamina D, então, sol é fundamental. Bebam água, é muito importante estarem hidratadas; façam exercícios físicos, mesmo em casa procure formas de se movimentar, seja dançando, dando algumas voltas nos cômodos, ginásticas em vídeos, faça alguma atividade física.

Do ponto de vista psicológico, faça coisas prazerosas, encontre esse tempo pra você! Sei que parece utópico cobrar isso de mulheres que estão sobrecarregadas, talvez você não consiga fazer isso todos os dias, mas estipule, pelo menos, dois dias na semana, umas duas horas para você fazer coisas que você gosta, seja assistir série, ler um livro, pintar o cabelo, cortar as unhas e pintá-las, brincar com seus filhos, dormir no meio da tarde, não sei, você sabe o que gostaria de fazer para si, se não sabe ainda, descubra, experimente, permita-se.

Do ponto de vista social, não abra mão das relações. Não é preciso estar perto para estar juntas. Façam ligações, converses por redes sociais, mandem fotos, compartilhem sentimentos, estreite laços, converse, chore, fique em silêncio, empreste os ouvidos a alguém. A troca é essencial para cultivar o sentimento de pertencimento e comungar ações que potencializem a saúde mental nesse momento.

É importante também, ao menos, uma vez na semana pensar na sua dimensão espiritual, aqui se respeita quem não tem qualquer crença em divindades, mesmo assim reverencie a natureza, de onde viemos? Pense-se como parte de um universo, um todo orgânico do qual existimos e fazemos parte, reverencie o sol, os astros, Deus, Buda, Alá, os Orixás… Mas tire um tempo do seu ócio para exercitarem o “religare” e tente pensar na nossa participação nesse mundo que deveria ser harmônica, imagine que há um processo milenar de acúmulo de energias, de criações, recriações e que somos parte disso: como podemos fazer esse sistema funcionar melhor?

Esta crise que obriga ao isolamento físico pode impulsionar mais coesão social e união para as lutas por uma nova sociabilidade que busque o bem comum!

(*) Carliene Sena é psicóloga e diretora da CUT-DF

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