14º CECUT | Disputa nas ruas e nas redes

Para além da comunicação entre pessoas, as redes sociais e plataformas digitais de forma geral atuam prioritariamente na conexão de terceiros (empresas/pessoas), numa lógica mercadológica da comunicação e do fazer-político, que se tornam determinantes para os rumos da sociedade. Durante o painel Comunicação, disputa política e o papel da classe trabalhadora, que abriu o Seminário Atualidades Políticas do Mundo do Trabalho – os Desafios da Classe Trabalhadora, foi destacada a necessidade das entidades do movimento sindical conhecerem o funcionamento político e estratégico dessas plataformas para poderem atuar neste espaço.

O dirigente do Sindicato dos Jornalistas do DF, Jonas Valente, que também é pesquisador do Laboratório de Comunicação da UnB, lembrou que “a tecnologia não é neutra”. “A tecnologia é resultado dos interesses de uma sociedade capitalista. As plataformas digitais, por exemplo, funcionam para gerar dinheiro para essas empresas e, ao mesmo tempo, moldam as pessoas”, afirmou.

Segundo ele, o monopólio da comunicação que antes era protagonizado pela radiodifusão, agora vem sendo também feito pelas plataformas digitais, tornando-se monopólios digitais. “Google tem a maior plataforma de vídeo, o maior sistema operacional, empresas de inovação. A Amazon, por exemplo, combina o frete grátis de entrega de produto com serviço de vídeo”, exemplificou.

Valente explicou que este sistema de funcionamento das plataformas digitais e redes sociais tem como objetivo captar dados dos usuários para poder direcionar produtos e modular comportamento. A partir daí, faz-se a segmentação do público, colocando-o nos chamados “filtro bolha”, gerando polarização da sociedade e, consequentemente, impedindo o acesso a espaços contraditórios e abrindo portas e janelas para a proliferação da desinformação (conhecida como fake news).

Jonas Valente, dirigente do SJPDF e pesquisador do Laboratório de Comunicação da UnB

Embora a lógica mercadológica do direito à comunicação, operando interesses daqueles que adotam uma agenda antipovo, Jonas Valente avalia que é preciso ocupar esse espaço de forma consciente e atuante. “O Facebook tem 2,4 bilhões de usuários. O WhatsApp tem 1,6 bilhões de usuários. E as eleições mostraram como o embate na internet é decisivo. Estamos perdendo a disputa nas redes. Quando eu falo isso, não estou dizendo que temos igualdade de condições, nunca tivemos. O poder econômico sempre existiu na política, e ele existe agora nas redes sociais. E precisamos entender como ele funciona. Precisamos entender a regra do jogo.Se fazemos disputa nas ruas, também temos que fazer nas redes”, disse. E completou: “Precisamos entender, por exemplo, que defender proteção de dados pessoais é entender a regra do jogo; discutir regulação das plataformas digitais é entender a regra do jogo. Precisamos qualificar nossos canais e estratégias.”

Reforma da Previdência

A palestrante Maria Mello, que integra o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social e a Plataforma dos Movimentos Sociais Pela Reforma do Sistema Político, apresentou o estudo Vozes Silenciadas – Reforma da Previdência e Mídia: o posicionamento de especialistas sobre a proposta do governo Bolsonaro. O material, feito pelo Intervozes, analisa as matérias referentes à reforma da Previdência publicadas nos três principais jornais impressos do Brasil (Folha de S.Paulo, O Globo e o Estado de São Paulo) e nos três principais telejornais (Jornal Nacional, Jornal da Record e SBT Brasil), em termos de audiência e circulação.

Duas perguntas foram balizadoras para a análise: quais foram os posicionamentos dos/as especialistas sobre a Reforma da Previdência apresentados por parcela da grande mídia nacional? Quais vozes foram ouvidas e quais foram silenciadas?

Os resultados da pesquisa apresentam grande diferença numérica entre as vozes favoráveis à proposta da reforma da Previdência e aquelas contrárias ao projeto apresentado. No meio impresso, 64% dos especialistas foram favoráveis e 19% contrários. Na cobertura televisiva, das 10 participações de especialistas, somente uma delas apresentou posicionamento contrário.

Outro dado importante destacado pela pesquisa foi a disparidade de gênero entre os especialistas. Nos jornais impressos, 88% dos especialistas ouvidos são do gênero masculino, enquanto nos telejornais a participação dos homens foi de 89%. Esse dado se agrava quando se leva em conta que as mulheres são as mais afetadas com as mudanças na Previdência, aprovada recentemente pelo Congresso Nacional.

Maria Mello, integrante do Intervozes e da Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma Política

“Enfrentamos uma conjuntura de tantos retrocessos, que organizações sindicais e estudantis se preocupam com sua pauta originária e vem deixando de lado pautas essenciais como democratização da comunicação. A informação se tornou central no capitalismo, e a mídia tradicional sempre se comportou de forma a garantir seus interesses. Perdemos essa luta da Reforma da Previdência, mas é importante termos esse material em mãos para fazermos o debate sobre mídia e seu impacto na sociedade”, disse Maria Mello.

CPMI das Fake News

Conhecida como fake news, a desinformação tomou proporções nunca antes vistas diante da rapidez que são disseminadas e do número de pessoas que atinge em questões de segundos através das redes sociais. Desconhecido em sua forma estrutural pela população, de forma geral, o tema vem sendo apropriado pelos setores mais reacionários dentro do parlamento, e ganhou até uma CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) na Câmara dos Deputados.

A palestrante Maria Mello lembrou que este espaço é hostil e que o tema, essencial para garantirmos um sistema democrático e a formação de cidadãs e cidadãos criticas/os, é avaliado de forma simplista e autoritária, muitas vezes até mesmo pelas/os deputadas/os progressistas.

“Nessa CPMI das fake news, se dá espaço para pessoas como Alexandre Frota. Não se trata do problema de fato que é a desinformação, apontando saídas como prisão para o usuário. Não se combate a produção industrial das informações falsas”, disse.

Para ela, “não há soluções simples para problemas complexos”. Entre algumas saídas apontadas para combater a desinformação, a palestrante indicou a educação da mídia nas salas de aula, a regulação das plataformas digitais com participação multissetorial e a construção e fortalecimento dos meios contra hegemônicos.

Segundo o atual secretário de Comunicação da CUT Brasília, Marcos Junio, que mediou o debate, a atuação dos sindicatos nas redes é essencial, mas o trabalho de base é também prioritário. “Tem que conversar com as companheiras e compmanheiros. Se não fizermos isso, seremos atropelados.”

Fonte: CUT Brasília | Fotos: Allen Mesa

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