Trabalhadores dos Correios entram em greve por direitos e contra a privatização

Trabalhadores e trabalhadoras dos Correios do DF iniciaram nesta terça-feira (10) a primeira greve nacional no governo Bolsonaro que tem como uma das principais bandeiras a luta pela soberania do país e contra a privatização das empresas estatais. O movimento, realizado em nível nacional, foi deliberado em assembleia, por unanimidade, na noite dessa terça-feira (10).

O que se percebeu dos trabalhadores presentes na atividade organizada pelo Sindicato dos Trabalhadores de Correios e Telégrafos do DF (Sintect) foi o sentimento de indignação. Além de se depararem com a iminente venda de uma das empresas mais lucrativas e importantes para o desenvolvimento social do país, a categoria ainda se defronta com a inflexibilidade da direção da ECT para negociar.

“Nós estamos sem acordo coletivo. A vigência desse acordo expirou, e a empresa não quis dialogar. Agiu de forma arrogante, e empurrou os trabalhadores para a greve”, diz a presidenta do Sintect-DF, Amanda Corcino. Ela conta que a data base da categoria é no dia 1º de agosto, mas que, por intermédio da Justiça, foi garantido uma prorrogação do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) até o dia 31 do mesmo mês. Diante da inflexibilidade da direção dos Correios e o consequente impasse nas negociações, a Justiça novamente ofereceu um outro prazo de mais 30 dias de vigência do ACT. Entretanto, houve recusa dos patrões.

Sem a garantia da manutenção dos direitos após o fim da vigência do acordo coletivo (ultratividade), imposta pela reforma Trabalhista, os milhares de trabalhadores dos Correios correm sérios riscos de terem direitos básicos extintos ou, no mínimo, rebaixados. “Vazaram alguns documentos da empresa que orienta a redução de benefícios e adicionais, redução no pagamento do tíquete, redução do percentual de hora-extra, redução no adicional de trabalho em fins de semana e adicional noturno”, denunciou Amanda Corcino.

Como pauta específica, a categoria exige a manutenção de todas as cláusulas sociais do atual ACT e a reposição da inflação nas cláusulas econômicas, além de um percentual de incorporação.

Até o fim da assembleia do Sintect-DF, deflagraram greve também trabalhadores dos Correios na Bahia, em Sergipe, no Amazonas, Paraná, Piauí, em Manaus, Bauru (SP), no Amapá, Espírito Santo, em Santa Maria (RS) e Goiás.

Correios privatizado, povo prejudicado

O ministro da Economia, Paulo Guedes, no início deste mês de setembro, comparou trabalhadores e trabalhadoras dos Correios com “uma nuvem de gafanhoto, que quando passa não deixa nada”, se referindo aos problemas econômicos no fundo de pensão da categoria, o Postalis. “Ele (Paulo Guedes) deveria pensar duas vezes antes de falar sobre os trabalhadores dos Correios e do nosso fundo de pensão. Se tem alguém que está sendo investigado e tem que responder por fraudes e ações temerárias em fundos de pensão, não somos nós. Quem se comporta como uma praga é esse governo, que acaba com tudo, com a Previdência Social, com os direitos trabalhistas, com a legislação ambiental”, rebateu a presidenta do Sintect-DF, Amanda Corcino.

A fala de Guedes foi feita em um evento na capital cearense, onde o ministro defendeu a privatização dos Correios e várias outras empresas estatais, indicando um falso desenvolvimento econômico do Brasil a partir dessa estratégia. No encontro, o ministro ainda disse: “ninguém hoje escreve carta”, tentando, de forma banal, encontrar argumento para a venda dos Correios.

“Somente os grandes centros, as capitais, quem tem dinheiro é que terão direito a serviço postal se os Correios forem privatizados. Hoje, os Correios garantem entrega em todo território brasileiro. Às vezes, em lugares que não tem escola, banco, sequer estrada, mas os Correios estão lá para garantir cidadania. Os Correios não são somente para entregar cartinha. É entrega de medicamentos que salvam vidas; é acesso à educação, com a entrega de livro didático. Será que uma empresa privada vai fazer esse papel de integração, executar esse papel social? A resposta é não. O privado visa somente o lucro”, argumenta a presidenta do Sintect DF.

Presente na assembleia dos trabalhadores dos Correios no DF, o presidente da CUT Brasília, Rodrigo Britto, lembrou que, ao privatizar os Correios, encurta-se o caminho para a venda de outras estatais e coloca-se em risco “os empregos, a soberania, a cidadania”. “A resistência e a luta são fundamentais para dar resposta a quem quer roubar nossos direitos”, disse o dirigente sindical, parabenizando a deflagração da greve.

Britto ainda informou que a CUT Brasília convocará uma plenária emergencial para tratar da greve dos Correios. “Essa não é apenas a luta dos trabalhadores dos Correios, mas a luta de mais de 100 sindicatos filiados à Central”, afirma.

Já o secretário-geral da CUT Brasília, Rodrigo Rodrigues, lembrou do Dia Nacional de Luta em Defesa das Empresas Estatais, agendado para o próximo dia 20 de setembro, e pautou a importância de os trabalhadores dos Correios se inserirem nessa luta. “Essa greve (dos Correios) tem uma importância gigantesca para o Brasil. Ela vai muito além da luta por direitos imediatos. É a luta em defesa da soberania. Os Correios realizam serviço de excelência e dão enorme retorno financeiro ao país. Não fosse isso, não haveria nenhuma intenção do governo em privatizá-lo”, analisa.

A deputada federal Erika Kokay (PT) e o distrital Fábio Félix (PSOL) também estiveram na assembleia dos trabalhadores dos Correios, nesta terça (10). Para Fábio Félix, “os Correios não são patrimônio de um governo, é patrimônio do Brasil”. “E precisamos lutar em defesa do nosso patrimônio”, disse Felix. Ele ainda convidou toda a categoria a participar de audiência pública sobre os Correios, na Câmara Legislativa do DF, no dia 24 de setembro, às 10h.

Já Erika Kokay respondeu duramente ao ataque de Guedes aos trabalhadores ecetistas. “Eu queria que um dia na vida dele ele pegasse encomendas e fosse de sol a sol entregar nessa cidade. Certamente ele não teria capacidade para isso. O que ele sabe é dilapidar o país e tentar entregar para um sistema financeiro”, analisou. Segundo a parlamentar, será apresentado ainda nesta semana à Comissão de Trabalho e Administração Pública da Câmara um requerimento sobre a criação de uma comissão de parlamentares para acompanhar a greve dos Correios.

Atividades

Ao longo da greve, o Sintect-DF organizará uma série de atividades que sustentarão o movimento. A primeira delas é uma assembleia nesta quarta-feira (11), em frente ao prédio sede dos Correios, às 10h. Ideias como a realização de panfletagens, passeatas e outras manifestações também serão aplicadas no calendário do movimento paredista.

Fonte: Vanessa Galassi, da CUT Brasília | Foto: Heitor Lopes

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