Congelamento de gastos ameaça tratamento e combate à aids no Brasil

No dia 1º de dezembro , o país completou três décadas de luta contra o HIV, sendo referência mundial no tratamento da doença. De lá para cá, os números comprovam uma vitória expressiva na contenção do vírus e da propagação da doença.

Conforme o Boletim Epidemiológico anual, em 2018, a taxa de detecção de aids caiu para 18,3 pessoas a cada 100 mil habitantes, uma redução de 16% em relação a 2012.
Também houve queda de 16,5% na taxa de morte pela doença entre 2014 e 2017. O resultado se deve, principalmente, ao fato do Brasil ter sido pioneiro na oferta do tratamento com antirretrovirais distribuídos – exclusivamente – pelo SUS.

Segundo Bruno Cerqueira, um mestrando de 39 anos, que porta o vírus desde 2007, nos 11 anos em que faz o acompanhamento na rede pública, a medicação nunca faltou. “Para todo mundo, independente da classe econômica, o tratamento é inteiramente gratuito, distribuído no posto de saúde para dois meses, de forma bem simples, sem nenhuma burocracia”, explica.

Ele conta que a facilidade do tratamento ajudou bastante na superação do medo da morte, já que, quando o vírus surgiu no final da década de 80, o índice de letalidade era de 100%. “Quando falamos em aids, lembramos de Cazuza, Renato Russo, Fred Mercury, e tantos outros ídolos pops que nos deixaram. Na época, lembro que isso foi bastante explorado pela mídia, até como forma de reprimir a liberdade sexual”.

Atualmente, o Distrito Federal conta com oito unidades de atendimento para pessoas com o vírus HIV e infecções sexualmente transmissíveis (IST). Somente o Hospital-Dia, na Asa Sul (quadra 508/509), recebe cerca de 5,8 mil pessoas por mês, 85% da demanda de todo DF, oferecendo tratamento psicológico, odontológico, clínico, entre outros, para soros positivos.

No entanto, o congelamento de investimentos na saúde com a PEC 95 ameaça todo o programa. O vice-presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), Veriano Terto, explica que a excelente atuação brasileira no combate à aids se deve, principalmente, à existência de um sistema de saúde público e único no Brasil. Ele afirma que o programa de distribuição de medicamentos só foi possível por conta do princípio de universalidade e equidade no qual o SUS se baseia.

Terto também denuncia que os cortes em áreas como educação e pesquisa preocupam e podem inviabilizar a atuação brasileira no combate ao vírus HIV. “Precisamos, constantemente, incorporar inovação, ou seja, não é só manter as compras e fornecimento de medicamentos, mas incorporar novos tratamentos para conseguir sustentar essa excelência”.

Segundo ele, a aids ainda não tem cura, mas o tratamento disponibilizado pelo SUS ajuda a diminuir a carga viral do HIV no sangue. Portanto, com o tratamento brasileiro o material genético do vírus fica tão pouco no sangue que algumas pessoas infectadas chegam a não transmitir mais a doença. Ou seja, tratar o soropositivo também é uma forma de prevenir que a aids se espalhe.

Neste sentido, as declarações de Bolsonaro que indicam que o SUS não deveria se responsabilizar pelo tratamento da aids, tratando de forma pejorativa quem é infectado pela doença, preocupam médicos e pacientes. O Ministro da Saúde, indicado pelo futuro presidente, também fez declarações polêmicas e causou apreensão entre soropositivos, especialistas e ativistas da área. A Comissão Nacional das Infecções Sexualmente Transmissíveis, do HIV/Aids e das Hepatites Virais (CNAIDS) lançou um manifesto em novembro.

Para Terto, que também é doutor em Saúde Coletiva, o contexto e os discursos conservadores do novo governo significam retrocessos e obstáculos imensos no tratamento e combate a aids no Brasil.

“A gente enfrenta prevenindo, com informação científica, com informação adequada e com posições de solidariedade com essas populações, não é condenando. Afinal, a sexualidade é condenada por religiões há mais de dois mil anos e nem por isso as pessoas deixam de ter uma vida sexual ativa”.

Ele ainda ressalta que apesar do tratamento brasileiro à aids ser referência mundial, os casos ainda são altos, principalmente, entre a população jovem. “A doença precisa ser enfrentada com dados, medicamentos, prevenção, apoio e, principalmente, informação”, conclui.

Fonte: CUT Brasília

Deixe um comentário:

Digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome