Argumento para que ponte volte a ter nome de ditador é no mínimo “risível” e “preocupante”, diz dirigente da CUT

À direita, Matheus Nunes Guimarães, sobrinho de Honestino Guimarães, junto com o dirigente da CUT Ismael César

O Conselho Superior do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios decidiu que a segunda ponte construída sobre o Lago Paranoá, hoje denominada Honestino Guimarães, voltará a se chamar presidente Costa e Silva.

A mudança é motivada pela ação popular das procuradoras Bia Kicis e Cláudia Castro, entre outros nomes. A ação tramita desde 2015, quando o governador Rodrigo Rollemberg sancionou o projeto da Câmara Legislativa que substituía o nome do ex-presidente do regime militar pelo do líder estudantil.

De acordo com Bia Kicis, “não houve nem sequer uma audiência pública e, para mexer no patrimônio, tem que ouvir a população”. Ela foi eleita deputada federal do DF pelo PRP nessas eleições.

Para o dirigente nacional da CUT Ismael José César, os argumentos apontados para que a ponte volte a ter o nome do ditador são grotescos e, ao mesmo tempo, muito preocupantes. “A mudança do nome da ponte Costa e Silva para Honestino Guimarães foi uma demanda de uma série de entidades da sociedade civil, como movimento estudantil, associações, centrais sindicais, em particular a CUT. E essa mudança se deu a partir da Câmara Legislativa que, em tese, é a Casa do Povo. Esse argumento de que não foi ouvida a população para fazer a troca do nome é, no mínimo, risível. Isso é muito preocupante, pois demonstra o recrudescimento que está acontecendo no país, que vem acontecendo desde o golpe de 2016.”

Para o sindicalista, é necessário que a sociedade civil se organize e pressione mais uma vez os responsáveis para garantir que a ponte tenha o nome Honestino Guimarães. “Se for o caso, vamos ouvir novamente a comunidade, o que não era feito na ditatuda militar, quando o nome Costa e Silva foi imposto para designar a ponte”, alerta.

Quem foi Costa e Silva

Costa e Silva tornou-se general do exército em 1961. Durante o governo presidencial de João Goulart (1961-1964), Costa e Silva presidiu o Ministério do Exército e foi um dos responsáveis pela elucubração e execução do Golpe Militar de 1964. Costa e Silva compôs a junta militar que governou o país após o golpe até a indicação do general Humberto Castelo Branco para a presidência. A crescente oposição ao regime militar levou-o ao recrudescimento, desse modo, o general Castelo Branco foi substituído pelo general Costa e Silva, esse último enfileirado à “linha dura” das forças armadas. O governo do general Costa e Silva foi marcado pela tortura dos opositores políticos ao regime, pelo cerceamento da livre expressão e de direitos políticos, institucionalizando a repressão.

Quem foi Honestino Guimarães

Honestino Guimarães foi um importante líder estudantil no período da ditadura, desaparecido político em 10 de outubro de 1973, após ser preso pela sexta vez, no Rio de Janeiro. Iniciou sua militância no movimento secundarista, foi aluno da UnB, eleito líder das mais importantes organizações estudantis. Em dezembro de 1968, com o Ato Institucional Número 5 (AI-5), saiu de Brasília e passou a viver clandestinamente em São Paulo. Mesmo na clandestinidade, continuou sendo líder dos estudantes e fiel opositor à ditadura militar.

Em outubro de 1973, foi preso pelo Centro de Informações da Marinha (Cenimar), após cinco anos de clandestinidade. Supõe-se que tenha sido transferido para o Pelotão de Investigações Criminais de Brasília, onde sua mãe foi autorizada a visitá-lo no Natal, mas no dia da visita disseram a ela que ele não estava ali. Seu desaparecimento foi denunciado pelos presos políticos de São Paulo, em documento datado de 1976.

Vinte anos depois, em 1996, o Estado reconheceu a responsabilidade por seu desaparecimento, quando a família de Guimarães recebeu um atestado de óbito do estudante emitido pelo poder judiciário do Rio de Janeiro, sem mencionar a causa da morte. Em abril de 2014, Honestino Guimarães foi oficialmente anistiado político post mortem pelo governo federal. O Ministério da Justiça determinou a retificação do atestado de óbito para que constasse como causa da morte “atos de violência praticados pelo Estado”.

Fonte: CUT Brasília, Infoescola (https://www.infoescola.com/historia/governo-de-costa-e-silva/) e Portal Memórias da Ditadura (http://memoriasdaditadura.org.br/biografias-da-resistencia/honestino-monteiro-guimaraes/index.html)

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