Congresso eleito traz novas caras, mas agrava o conservadorismo

O Congresso Nacional teve a maior renovação das últimas décadas. Na Câmara dos Deputados, o índice chegou a 47,3%. Já no Senado mais de 85% dos parlamentares são novos. Em um dos pleitos eleitorais mais emblemáticos desde a redemocratização do país, os números apontaram anseios de mudança por parte da população, mas também evidenciaram a renovação do velho, principalmente no campo ideológico.

A Câmara será representada por 30 partidos, um recorde, considerando as legislaturas anteriores. Com 56 deputados eleitos, o Partido dos Trabalhadores (PT) continua sendo a sigla com maior representação na Casa. Outras legendas de esquerda também tiveram ganhos significativos. É o caso do PSOL, que aumentou sua representação de seis para 11. Já o PCdoB manteve-se estável. Partidos como MDB, PSDB e DEM tiveram perdas, principalmente, o primeiro, que viu sua bancada reduzir quase pela metade. De 66 eleitos, em 2014, apenas 34 conquistaram uma cadeira, em 2018.

Já a composição do Senado salta de 15 para 21 partidos. Com 12 senadores, o MDB continua com a maior bancada na Casa. O maior revés, no entanto, foi do PT, que reduziu sua representação de 13 para seis representantes.

“O índice de parlamentares que, de fato, são novos, é de 10%. Ou seja, aqueles que estão pela primeira vez na vida pública. O que entraram nessa renovação são ex-deputados, ex-senadores, ex-governadores, principalmente ex-deputados estaduais”, explicou o assessor legislativo do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Neuriberg Dias.

De acordo com Dias, a agenda do Congresso se manterá muito próxima dos interesses do mercado e de empresários, mas também serão muito explorados temas ideológicos. “Assuntos como a Escola Sem Partido, por exemplo, tendem a ter uma discussão muito maior, até em um eventual governo do Jair Bolsonaro, que terá o poder de enviar esses temas ao Congresso Nacional e ter prioridade na tramitação, o que força essa discussão. A agenda econômica tende a passar com mais tranquilidade, já que são segmentos que não vão discutir profundamente o tema”, destacou.

O que assusta, no entanto, é o inclino ao conservadorismo ― fenômeno em ascensão ao redor do mundo. Para Neuriberg, isso se deu em decorrência do surgimento e fortalecimento de partidos que defendem uma bandeira mais conservadora, com parlamentares ligados ao agronegócio e segurança pública, como por exemplo, o Partido Social Liberal (PSL). Representado pela figura do capitão reformado do exercito Jair Bolsonaro (PSL) ― que disputará a presidência em segundo turno com Fernando Haddad (PT) ―, a sigla deu um salto inimaginável. Com apenas um deputado eleito nas eleições de 2014, a o partido elegeu 52 federais nesse pleito. É importante destacar também que grande parte dos candidatos que sinalizaram apoio a Bolsonaro conseguiram se eleger.

“Desde 2014, a disputa caminhou para as pautas mais conservadoras. O próprio Congresso eleito naquele ano já dava um indicativo de que esse grupo (conservador) iria buscar seu fortalecimento nessas eleições. Criaram-se novos partidos. Líderes do segmento religioso, do agronegócio e militar, de fato, se debruçaram para ampliar suas bancadas no Congresso Nacional. A estratégia foi aproveitar o momento de desgaste em relação à política e atacar os políticos ‘tradicionais’”, afirmou.

Outro fator destacado por Dias é que, nesse cenário de troca de cadeiras, grandes figuras da política brasileira perderam suas vagas. “No Senado, tudo que tinha de ‘tradicional’ em relação a político e partido, teve uma renovação enorme, de 85%. Eunício Oliveira, que era presidente do Senado, e Garibaldi Alves, ‘cacique’ do Rio Grande do Norte, por exemplo, não foram reeleitos”, disse.

Por fim, o assessor do Diap destacou a atuação da esquerda nesse período de avanço do conservadorismo. Para ele, apesar do antipetismo ter sido usado para renovação no parlamento, a esquerda brasileira teve um bom desempenho nas urnas. “Mesmo com o avanço da extrema-direita, os partidos de esquerda se mantiveram nas bancadas, trouxeram a militância, e subiram deputados estaduais. De fato, em relação à eleição proporcional, foi bem positiva considerando a conjuntura”, avalia.

Fonte: CUT Brasília

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